Ministério Público investiga gestão de Marco Antônio Castello Branco, que desagrada empregados, fornecedores e clientes
Um dia após Marco Antônio Castello Branco anunciar que deixará o comando da Usiminas, ontem não se falou em outra coisa na empresa. A gestão de Castello Branco foi marcada nestes quase dois anos por decisões polêmicas e acusações de assédio sexual, moral e espionagem. Resultado: a empresa amargou uma queda de produtividade. A forma de comandar refletiu negativamente entre os funcionários.
Marco Antônio Castello Branco vai deixar o cargo no dia 30 de abril. Em seu lugar entrará o atual presidente do Conselho de Administração da empresa, Wilson Brumer. Oficialmente, a troca no comando é só uma mudança no "estilo de administrar". O próprio Castello Branco diz que seu modo de comandar "nem sempre é muito delicado" e que seu sucessor é mais "conciliador". Nos bastidores, a saída é vista com alívio.
Um ex-funcionário diz que o atual presidente é uma pessoa "intratável". "Ele é uma unanimidade. Conseguiu desagradar a todos: funcionários, aposentados, comunidade, fornecedores, clientes. Só os diretores que ele levou não eram contra ele", disse. "Ele humilhava os funcionários", completa. Para apurar essas situações, o Ministério Público do Trabalho abriu uma investigação de assédio moral e sexual dentro da Usiminas.
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Ipatinga, Luiz Carlos Miranda, a mudança é um alívio. "Uma pesquisa mostrou que 96% dos funcionários odeiam o Marco Antônio. Não é desaprovam, é odeiam mesmo", disse, completando que a gestão que se encerra é "uma página a ser apagada da história da empresa". Segundo Miranda, em quase dois anos de gestão, nunca houve nenhuma reunião com os trabalhadores ou com a comunidade, situação que já começou a mudar. "O Brumer já me ligou para conversar sobre uma forma de pacificar a empresa", disse Miranda.
Demissões
O presidente do sindicato conta uma passagem que ilustra o jeito Castello Branco de administrar. "Ele e a Denise (Brum, diretora de recursos humanos) montaram uma tenda e convidaram 850 pessoas para irem à usina em um fim de semana. Todos foram demitidos. Algumas pessoas tinham 25, até 30 anos de casa".
Estava marcada para ontem uma reunião do Grupo de Controle da Usiminas, para tratar de assuntos a serem levados à Assembleia de Acionistas, no dia 30. No mesmo dia haverá a reunião do Conselho de Administração. No lugar de Brumer na presidência do conselho, entrará Israel Vainboim, hoje conselheiro do Itaú Unibanco.
Boicote
O anúncio da troca de comando na Usiminas foi feita pelo próprio Marco Antônio Castello Branco. Ele admitiu que sai desgastado pelas demissões de cerca de 3.000 funcionários e pelas polêmicas de sua gestão. "A Usiminas tem a oportunidade de não ser afetada nos seus negócios e no seu futuro por esse desgaste natural ligado à minha maneira de administrar, que nem sempre é muito delicada", disse.
A expectativa é de que o clima e a produtividade na Usiminas devem melhorar a partir de maio, com o novo caomando. De acordo com Luiz Carlos Miranda, havia boicote à produção por parte dos trabalhadores. "O pessoal sempre foi muito zeloso e parou de ser. Eles deixavam de fazer uma inspeção na máquina, o equipamento ficava superaquecido à noite, não funcionava bem no outro dia", diz. Segundo ele, o boicote foi motivado pela desaprovação geral à atual gestão.
Frases
O presidente demissionário, Marco A. C. Branco, resumiu a situação: "A Usiminas tem a oportunidade de não ser afetada nos seus negócios e no seu futuro por esse desgaste natural ligado à minha maneira de administrar, que nem sempre é muito delicada". "Assumi as consequências das mudanças necessárias e não me arrependo de nenhuma delas".
60 Perguntas É o número de questionamentos que consta em um panfleto do Sindipa contra a administração de Marco Antônio C. Branco.
O Sindicato dos Trabalhadores de Ipatinga (Sindipa) realizou intensa campanha contra a administração de Marco Antônio Castello Branco. Na segunda-feira, segundo o presidente da entidade, Luiz Carlos Miranda, houve foguetório na cidade para comemorar a queda do executivo. Um dos questionamentos do sindicato é em relação à contratação do israelense Avner Shemesh, acusado de ser o espião responsável pelos grampos telefônicos no caso Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. Shemesh recebia R$ 50 mil por mês da Usiminas para prestar "consultoria, assessoria e auditoria em segurança patrimonial, segurança eletrônica e gestão de riscos operacionais prevenção e investigações de perdas e fraudes". A extensa função descrita no contrato é resumida pelos empregados como controle de telefonemas e e-mails, principalmente de quem era ligado à antiga administração, a de Rinaldo Campos Soares. "Eles nos espionavam. Quando eu saí de lá, levaram meu computador para saber com quem eu falava", diz um ex-funcionário. Na última sexta-feira o Sindipa fez um panfleto com "60 perguntas para Marco Antônio Castello Branco", no qual questionava as demissões, a contratação de consultores por valores altíssimos, a perda de participação de mercado, entre outros. O Sindipa pedia a saída do presidente e da diretora de recursos humanos da empresa, Denise Brum, responsável pela implantação da política de Castello Branco. (APP)